quarta-feira, 20 de julho de 2016

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Transrealismo

    Se você já se deparou com o Manifesto Tocando anu para Cantagalo, é provável que tenha percebido que um de seus itens faz menção a um outro manifesto, o Transrealista. Queporréssa?, você se pergunta.
    Bem, desenvolvido pelo matemático e autor de ficção científica Rudy Rucker, o Manifesto Transrealista propõe um tipo de ficção onde personagens não se submetem aos caprichos de seus autores. A ideia, basicamente tão simples, é libertar-se dos maniqueísmos, abraçar idiossincrasias da contemporaneidade e oferecer um programa de leitura e criação que sejam desafiadores, onde cada mente é capaz de oferecer uma nova realidade e interpretação, com uma constante abertura de significados. A leitura deve servir como um meio à reflexão, não como uma ferramenta condicionante e alienante do universo proposto pelo autor.

Página inédita! :)
     Quando escreveu o Manifesto Transrealista Rudy Rucker era docente na Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg, na Alemanha, e publicado no Boletim nº 82 da Science Fiction & Fantasy Writers of America. Nele, Rucker propunha um tipo de ficção onde as personagens não se submetem simplesmente aos caprichos do autor, onde “as ações se tornam previsíveis e no diálogo é difícil dizer qual personagem supostamente está falando. Na vida real, as pessoas que você encontra, quase nunca dizem aquilo que você espera que elas digam.” (RUCKER, 1980, p. 1) O manifesto transrealista busca uma expressão literária que hoje pode nos parecer comum, mas que ainda carece de explicações em certos meios:


Em um romance transrealista, o autor freqüentemente aparece como personagem, ou a sua personalidade está dividida entre vários personagens. Dizendo assim parece até egoísta. Mas posso argumentar que usar a si mesmo como personagem não é egoísmo de verdade. É simplesmente uma necessidade. Se, de fato, você está escrevendo sobre percepções imediatas, então que outro ponto de vista senão o seu é possível?
É bem mais egoístico utilizar uma versão idealizada de si mesmo, fantasiando-a, e tendo este 'para-você' desabafando a sua vontade através de embalagens flexíveis escravas. O protagonista transrealista não é apresentado como um tipo de super-herói. O protagonista transrealista é um neurótico inútil, como nós mesmos sabemos ser.
O artista transrealista não pode predizer a forma final de seu trabalho.
O romance transrealista cresce organicamente, como se tivesse vida própria. O autor pode apenas escolher personagens e cenários, introduzir este ou aquele elemento fantástico e direcionar para certas cenas chaves. Em condições ideais, o romance transrealista é escrito na obscuridade, sem uma linha geral ou esboço. Se o autor sabe precisamente como seu livro irá se desenvolver, então o leitor irá advinhá-lo também. E um livro previsível não nos interessa. Todavia o livro deve ser coerente. Concorde comigo - a vida quase sempre não faz sentido. Mas as pessoas não irão ler um livro que não tem enredo. E um livro sem leitores não é efetivamente um trabalho de arte. Um romance de sucesso, de qualquer tipo, deve carregar seus leitores consigo. Como é possível escrever tal livro sem um esboço? É semelhante a desenhar um labirinto. Para desenhar um labirinto precisamos de um inicio (personagens e cenário) e alguns objetivos (cenas chaves). Um bom labirinto força-o a percorrer objetivos de uma forma coerente. Quando você desenha um labirinto, você começa com um caminho, mas deixa um monte de outros caminhos por percorrer. Escrevendo um romance transrealista coerente, você inclui um certo número de acontecimentos sem explicação através de seu texto. Coisas para as quais você não sabe a razão. Mais tarde você amarra estas pontas soltas, das narrativas ramificadas. Se nenhuma ligação está disponível, você volta atrás e a reescreve (como se apagando uma parede do labirinto). Apesar de a leitura ser linear, escrever não o é.
(IDEM, pp. 1-2)


  A ideia, tão simples, é libertar-se dos maniqueísmos, abraçar as idiossincrasias da contemporaneidade e oferecer um programa de leitura e criação que sejam desafiadores, onde cada mente é capaz de oferecer uma nova realidade, uma nova interpretação, em constante abertura de significados. A leitura deveria servir como um meio à reflexão, não como uma ferramenta condicionante, parte do sistema onde o “público” inerentemente acaba retornando aos programas diários de TV e noticiários e a roda-viva de todo dia.
    Da mesma maneira, em Tocandoanu para Cantagalo, é comum que certos temas acabem por permear toda a história, assim como o comportamento das personagens: embora o Darío Vuturuá de A Volta do Umbigo, Disgramento, Macuconha e A Bela Máscara sejam essencialmente o mesmo personagem, ele difere de uma narrativa da outra quanto ao local de moradia, trabalho e, no caso da web-série Na terra dos pésjuntos, até mesmo em relação à personalidade. Por outro lado, Zacarias é sempre quase relatado como alguém obcecado por um painel de fios vermelhos onde o destino das personagens parece estar pré-estabelecido, sendo que em Disgramento o tal painel não aparece e nA Volta do Umbigo ele surja com um dos pés amputados, enquanto em Na terra dos pés juntos, Zacarias não passe de uma sombra sinistra que controla todos os eventos, que, embora nunca tenha sido mencionado nos episódios filmados, aparece em todos os roteiros.
     Ao se elucubrar sobre as personagens e seus múltiplos direcionamentos, temos de nos deter sobre a questão temporal profundamente arraigada às narrativas de Tocando anu para Cantagalo. Posto que é intenção do autor coadunar todos os eventos numa mesma linha temporal, ele tem também de lidar com as dificuldades impostas pelo próprio impulso de reescrever constantemente toda a obra – afinal, se o quadrinho A Volta do Umbigo, o conto As voltas do umbigo, o romance Disgramento e as postagens iniciadas com As metáforas do cigarro, no site Arames da Cerca, praticamente contam as mesmas histórias, elas também mostram divergências gritantes quanto aos caminhos do recém-chegado Darío Vuturuá a Macuco. Isto sem contar o conto DoppelgangerizaçãoTransdimensional de Macuco, que apresenta a possibilidade de que Darío Vuturuá e Tompinhão Coelho (um dos protagonistas de Macuconha) sejam doppelgangers.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Cinema Novo e Tropicalia se reencontrando em quadrinhos

   Nessa altura do campeonato, você provavelmente já se deparou com o trailer de Pássaros Artificiais... E se ainda não viu, clique aí.


     Prontinho. Já viu? Reviu? Assistiu dando pausas, tentando pegar as coisas divertidas que o Cristiano Botelho enfiou no menos de um minuto de vídeo? (Repararam no Hieronymus Bosch na janela?)
      Então, você também deve ter notado o seguinte comentário do cineasta Délio Freire:
“Em um lugar onde vários mundos se conectam após a morte de um escritor apaixonado pela literatura, somos apresentados a uma ciranda de acontecimentos e referências. Um mundo repleto de melancolia e caos em uma HQ que é original e independente. Julio Cortázar encontrando Ariano Suassuna. Cinema Novo e Tropicália se reencontrando em quadrinhos”
      Se você chegou até aqui, então já sabe que somos bastante ambiciosos com o que tratamos aqui. Não apenas com a forma, mas também com o conteúdo. Esta não é uma história fácil, tampouco o é para leitores fáceis. Queremos provocar, tocar fogo, te adoentar.
    Novamente, se você chegou até aqui, também deve ter percebido que até trilha sonora nós montamos, não é? Pois bem, duas honrosas exceções estão (?) aí: Raul Seixas e Tom Zé. Um não foi tropicalista, o outro é o legítimo, se bem que praticamente expulso no auge do movimento.
      Talvez (é bem provável que seja isso mesmo), mais do que tudo o que você viu, leu ou escutou até agora, são esses caras as grandes forças motrizes dessa incerteza de acontecimentos que movimentam a constelação de histórias e tramas que dão nó em Pássaros Artificiais.
       Discutiremos isso melhor amanhã. Por hoje, fiquem com as duas versões da página que é apresentada no trailer. Boa leitura!


sábado, 25 de junho de 2016

A Máquina de Escrever

   Seguimos com nosso ritual sabático de apresentar um personagem potencialmente desconhecido do universo de Tocando anu para Cantagalo. O desta semana, assim como da anterior, é uma das pessoas que está por trás de quase tudo até agora:


   Surgido no roteiro da HQ não desenhada A Máquina de Escrever, Pedro Conselheiro é um escritor paranóico, que passa a ser assombrado por personagens de suas histórias, cujos trechos aparecem, em recordatórios, por toda a narrativa. A história é contada através do ponto de vista do investigador paranormal Daniel Garcia, que a todo momento se divide entre a incredulidade e o mergulho nos delírios de Pedro Conselheiro. Dentre as personagens, destacavam-se a secretária, que não aparece, mas se faz presente pelos cinzeiros repletos de guimbas de cigarro que deixa para trás, a musa juvenil que atormenta os sonhos molhados do escritor e o assistente do investigador, de nome Diego, que desaparece durante uma visita no hospital.
   Presente em Disgramento (ciranda de aço com rosa), Pedro Conselheiro é o principal colaborador de Antonio Izabel na criação da Orquídea, a organização artística por trás dos eventos do livro. Pedro é a consciência por trás de todas as tramas, ganhando uma personalidade definidora a partir dos desenhos de Antonio Eder. Sua participação em Pássaros Artificiais é muito marcante, assim como os traços de Antonio.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

A Metaficção

Onde é o lado de lá da realidade? Para onde convergem, de onde procedem os fios que tecem a trama de nossas vidas? E quem observa essa trama, fora do tempo e do espaço, entre as frestas e batidas do coração? A resposta está na Teoria da Flor de Lótus, e pelas ruas desta Macuco literária e alucinógena, desta Macuco alucinada e reflexiva, onde a realidade é desfolhada pelo sopro suave de um tempo não-linear, e as histórias que tomam forma apontam para O Que não tem forma, nem nunca terá.
Lucio Manfredi, escritor, roteirista e dramaturgo

"um lençol pendurado na parede com fios de diferentes cores se entrecruzando, vibrando-se plenipotencialmente – ele explicava a realidade quotidiana dessa forma, como um acadêmico experimentado versaria sobre física quântica e a teoria matemática do caos."
   A postagem de hoje é sobre metaficção, segunda parte do Manifesto Tocando anu para Cantagalo: literatura sobre literatura, onde, embora se saiba personagem, o autor ainda é uma figura externa, buscando na experiência narrativa mais do que a construção de um arco ficcional relevante, uma história de ecos que se traveste de completude nas migalhas do pão. E se essa opção do micro tomado pelo macro parece dotada de uma grandiloquência exacerbada, lembramos que as ambições desta empreitada não se propõem a ditar as regras, desenvolver uma linguística “definitiva” de uma geração de criadores, no que concerne à narrativa regionalista. A intenção é o picaresco, o agoniante, a recriação de uma realidade insubmissa às leis da ficção, entregando a criação de personagens a uma mutação constante;

    Como dito em postagem anterior, tudo se conecta pelos Fios de Zacarias, mas não apenas por ele.
Sei que Darío também tivera contato com o painel de Zacarias, apesar de não saber como isto o afetou. Teve gente, no passado, que viu aquilo como algo maligno. As conexões estariam dispostas em formato muito semelhante as ruas e bairro de Macuco. Um amigo, Pedro Neto, garantiu-me que chegou a identificar praças e viradores na multidão de oroboros vermelhos que pareciam infestar-se de maneira vívida pelo lençol pendurado na parede velha. Darío é um encantado pela multitude familiar e caoticamente orgânica que ele encontra nas cidades do interior, e Macuco em particular lhe traz nuances muito atrativas. Me parece que ele passa horas e horas trancado e debruçado sobre a máquina de escrever, aparentemente tentando descoerentizar as próprias histórias, implicando uma complexa rede de ações que não necessariamente se interligam, apenas existem por si próprias, alheias as vontades temporais a que se submetem certas narrativas. (...) Ele diz que o que está fazendo, o que está escrevendo, implica em converter o imaginário em algo real, esperando tocar as pessoas, recuperar suas vontades de integração e encadeamento de eventos. Algo que, ao mesmo tempo em diz buscar uma nova integração de pessoas em lugares, parece trabalhar muito melhor com a ideia romântica de se atravessar o fluxo do tempo, arregaçar as limitações naturais e botar pra foder na panela de caldo quântico do que já passou e passará.

        Visto que o presente trabalho é também uma cartografia sobre a composição e arregimentação de elementos e histórias diversas, que se entrelaçam a fatos cotidianos e observações sobre a memória recente do município de Macuco, é válido que se pare para pensar por um momento como a metaficção local pode ser utilizada pelo autor de Tocando anu para Cantagalo.
A metaficção inclui as questões da pós-modernidade conforme Jair Ferreira dos Santos, “(...) o romance deve se tornar uma imitação deliberada do romance, dos gêneros literários ou de qualquer outro texto apto a injetar-lhe sobrevida.” (SANTOS, 1995, p. 62) Para Jair, a pós-modernidade garante ainda uma metaficção, literatura sobre literatura, onde o burlesco tem um papel importante:


O burlesco, que é o exagero cômico, vai ser o tom dominante na metaficção. Uma estética jocosa, fantasista, não-modernista, do absurdo passará por ele. Gênero menor, modo temático e estilo narrativo, o burlesco, em ação na literatura inglesa desde o séc. XVII, surrupiado ao francês Scarron, é um dispositivo de paródia que faz rir pela incongruência entre o fundo e a forma (algo assim como transpor a Eneida com a linguagem virgiliana para o meio de uma família calabresa vivendo hoje no Brás). Para fazer rir, o burlesco convoca toda a baixaria: sexo, violência, drogas, loucura, perversão, escatologia – a parte maldita com a qual o pós-modernismo, sem ilusões ante a sociedade tecnológica, desanca o projeto Iluminista em sua crença na emancipação do homem pelo conhecimento e o progresso. Nessa mesma trilha, o burlesco é ainda a parte intertextual por onde os autores pós-modernos cruzam o fosso (bem modernista) entre arte culta e arte de massa: ficção científica, romance policial, conto de fadas, pornografia, western e quadrinhos são alegremente canibalizados pelos espíritos mais requintados. (IDEM, pp. 62-3)


   Vale dizer ainda que, embora se saiba personagem, o autor ainda é uma figura externa, que supostamente deveria prestar atenção a detalhes e controlar as ferramentas narrativas, tal qual nos instrui Foucault em seu ensaio O que é um autor?:


(…) A noção de autor constitui o momento forte da individualização na história das ideias, dos conhecimentos, das literaturas, na história da filosofia também, e na das ciências. Mesmo hoje, quando se faz a história de um conceito, de um género literário ou de um tipo de filosofia, creio que tais unidades continuam a ser consideradas como recortes relativamente fracos, secundários e sobrepostos em relação à unidade primeira, sólida e fundamental, que é a do autor e da obra. (FOUCAULT, 1992, p. 33)


    Se o texto aponta para o autor, se a sua relação é, em primeiro lugar, com o autor, então as personagens seriam um reflexo disso, não? Foucault (1992) antes de tudo nos lembra que a escrita, hoje, é liberta dos temas da expressão, só se referindo a si mesma, sem no entanto, se aprisionar em sua interioridade: “(...) identifica-se com a sua própria exterioridade manifesta. (…) é um jogo ordenado de signos que se deve menos ao seu conteúdo significativo do que à própria natureza do significante.” (IDEM, p. 35) O jornalista e acadêmico Antonio Olinto, ao falar sobre a obra de James Joyce, nos diz algo semelhante, alertando-nos para o fato de que


As palavras também morrem. Deixam de ser prenhes de sentido, tornam-se meros sons vazios, fofos, sem fixação no pensamento. Para Joyce, mesmo o instrumento de comunicação diárias estava tocado de decadência. Então quebrou os vidros que o envolviam, e através dos quais só via fiapos de movimentos vagos na paisagem, e criou um mundo à imagem e semelhança de sua angústia. (OLINTO, 2008, p. 61)


      “Tocando anu para cantar galo” ou apenas Cantagalo1, é expressão usada há muito para designar aqueles que encontram-se em situação de desespero, com o dinheiro curto ou simplesmente sentindo-se prejudicados de alguma forma. O anu é um pássaro preto, que, conforme se aprende na região, vive próximo a cercas e pastos onde carrapatos se proliferam. De certa forma é um pássaro de mau-agouro, seja pela sua cor, seja pela sua proximidade com os corvos, ainda que na região também seja comum a presença de anus brancos, mais atrativos esteticamente.
      Mas são os anus pretos e o mau-agouro que trazem com eles que dão o tom dessa farsa que se pretende analisar ao mesmo tempo em que é criada. Uma farsa como todas, que abre mão dos referentes, que anula o realismo e cujo autor está imerso em suas angústias.
     O romance Tocando anu para Cantagalo e as histórias que o formam abdicam em parte da realidade para a gestação de uma realidade nova, diferenciada do palpável, adotando das narrativas modernas, dos gêneros populares e das mídias que os difundem, suas principais características: serialização das tramas e construção de uma realidade calcada em um determinado número de elementos que produzam uma segurança metafórica, com a criação de uma mitologia particular, dando unidade às diversas tramas. Embora no texto pareça que há uma exclusão do “onde é que eu tô, para onde é que eu vou e de onde que eu sou?” como questões de vital importância, Jair Ferreira dos Santos nos lembra que:

A metaficção no entanto não é apenas uma fisiologia do escabroso e do bizarro nem os funerais de gêneros que se esgotaram. Contra-romance que imita o romance, ela quer ser uma nova epistemologia literária, um desmascaramento das convenções ficcionais mantidas intactas pelo próprio modernismo, e por aí, criando mundos verbais alternativos, ser um ataque à atualidade, onde, segundo Borges, é total “a contaminação da realidade pelo sonho”. (SANTOS, IDEM, p. 63)


      Ou seja, busca-se na experiência narrativa muito mais do que uma construção de um arco ficcional relevante. É uma história de ecos que se traveste de completude nas migalhas do pão (se é que podemos fazer uma alusão a Proust nesse ínterim). E se essa opção pelo micro tomado pelo macro parece dotada de uma grandiloqüência exagerada, lembramos que as ambições deste projeto não visam o desenvolvimento lingüístico “definitivo” desta geração no que concerne à narrativa regionalista. Longe de tal ousadia. A intenção é recriar a realidade com um certo ar picaresco.


Nessa mesma trilha, o burlesco é ainda a ponte intertextual por onde os autores pós-modernos cruzam o fosso (bem modernista) entre arte culta e arte de massa: ficção científica, romance policial, conto de fadas, pornografia, western e quadrinhos são alegremente canibalizados pelos espíritos requintados. (SANTOS, IBIDEM IDEM, p. 63)


         E como recriar uma realidade que não se submete mais às leis da ficção, quando as ferramentas narrativas várias que se apresentam na contemporaneidade, praticamente todas se servem e bebem exaustivamente de uma revolução generalizada, provocada pela literatura jovem dos beats? Pois, mesmo que efetuado há mais de cinqüenta anos, o movimento, hoje não tão jovem, ironicamente permanece longe de ser careta. Como se atrever à criação de um universo reflexivo e vivo da pulsante e infinitamente criativa (e ao mesmo tempo quadrada, retrograda) sociedade contemporânea?
John Bart diz que a literatura dos últimos cinqüenta anos passou por dois processos distintos e, inerentemente, iguais. Em 1967, no ensaio A Literatura do Esgotamento, declarou que a busca por uma ruptura do pensamento dentro das linhas tradicionais era uma rebeldia que se entregava à auto-devoração, metaficção por auto-conhecimento (o texto consciente de si mesmo). Curiosamente, enquanto Barth diferenciava o romance realista (sobre o mundo que é), o romance modernista (sobre o mundo que poderia ser) e o romance pós-moderno (sobre mundos que não podem ser, que se contradizem), Gabriel García Márquez despeja sobre o mundo o multitudinário Cem Anos de Solidão, que alimenta personagens de contos e novelas anteriores, além de municiar o autor com cenários que viriam a ser aproveitados futuramente em sua própria obra. Sobre isto, diz Mario Vargas Llosa:

Dificilmente poderia fazer, uma ficção posterior a Cem Anos de Solidão, o que esta novela faz com os contos e novelas precedentes: reduzi-los a condição de anúncios, de partes de uma totalidade. Cem Anos de Solidão é essa totalidade que absorve retroativamente os estágios anteriores da realidade crítica, acrescentando novo material e edificando uma realidade com um princípio e um fim no espaço-tempo: como poderia ser modificado ou repetido o mundo que esta ficção destrói depois de completar? Cem Anos de Solidão é uma novela total, na linha dessas criações absolutamente ambiciosas que competem com a realidade real de igual para igual, entregando uma imagem de vitalidade, vastidão e complexidade qualitativamente equivalentes. (LLOSA, Mario Vargas, 2007, p. XXV)2


Treze anos depois, Barth voltaria ao tema com o artigo A Literatura da plenitude, onde ele revela ter repensado a questão, observando que a literatura pós-moderna deve esvaziar-se da necessidade de figurar em alguma escola ou listagem, assim como não é necessariamente um desenvolvimento do projeto modernista, porém descartando o sentido da criação como algo sublime, deixando a visão romântica de lado em prol de uma literatura que não imita nem repudia seus genitores. Ele recusa a necessidade de uma literatura que se soerga a uma sobrevida baseada na quantidade de textos analíticos que acompanhem o leitor durante a jornada empreendida na leitura. “Ninguém precisa mais de outros Finnegans Wake acompanhados de suas equipes de professores dedicados a explicá-los” (BARTH apud SANTOS, 1995), disse Barth, que também elogiou o Cem Anos de Solidão de García Márquez como uma literatura deliciosa, “rica em proteínas” (IDEM).

Se os modernistas, erguendo a tocha dos românticos, nos ensinaram que a linearidade, racionalidade, consciência, causa e efeito, ilusionismo ingênuo, linguagem transparente, anedota inocente e convenções morais de classe média não são toda a história, então, segundo a perspectiva das últimas décadas do nosso século, poderíamos admitir que o contrário de todas essas coisas também não são toda a história. Disjunção, simultaneidade, irracionalidade, anti-ilusionismo, anti-reflexão, o-meio-como-mensagem, olimpianismo político, a idéia do artista como herói e um pluralismo moral que beira a entropia tampouco são toda a história.” (IDEM)


É uma maneira de se estabelecer conexão com uma realidade literária fictícia em andamento com base em narrativas contemporâneas.
         Seus próprios dramas, no entanto, geram a auto-sustentação e constante revigoração pela grande variedade de frentes midiaticas às quais as personagens são expostas. Assim como intentamos fazer aqui com os diversos caminhos narrativos de Tocando anu para Cantagalo.
       Então, se há alguma temeridade no que se refere à construção das personagens, antes há essas outras, mais imediatas, onde a linguagem e as propostas às quais o autor se entrega, devem ser trabalhadas e pensadas como objetos em mutação constante. Afinal, Tocando anu para Cantagalo é obra em progresso iniciada em 2002, treze anos, uma adolescência e um começo de vida adulta atrás, donde se conclui que o autor aqui entregue a esta cartografia muito viveu e, aos olhos dele, até penou, riu, amou e sobreviveu. Assim, suas influências, gostos e deliberações se modificaram o bastante para justificar as transformações as quais se submeteram também as personagens.

1 Cidade natal de Euclides da Cunha e do autor deste texto.
2 Difícilmente podría hacer uma ficción posterior con Cien años de soledad lo que esta novela hace com los cuentos y novelas precedentes: reducirlos a la condición de anúncios, de partes de uma totalidad. Cien años de soledad es esa totalidad que absorbe retroactivamente los estádios anteriores de realidad ficticia, y, añadiéndoles nuevos materiales, edifica una realidad con un principio y un fin en el espacio y en el tiempo: ¿cómo podría ser modificado o repetido el mundo que esta ficcíon destruye después de completar? Cien años de soledade es una novela total, en la línea de esas creaciones demencialmente ambiciosas que compitem con la realidad real de igual a igual, enfrentándose una imagen de una vitalidad, vastedad y complejidad cualitativamente equivalentes. (tradução minha) 
 
 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O livro dispositivo

    Você sabia que Pássaros Artificiais é um projeto transmídia? Que as histórias a serem contadas nessa HQ não se limitarão somente a suas páginas, refletindo-se em outras tramas, desde livros até web-séries? Que a mente maluca por trás disso tudo elaborou um manifesto só para falar sobre suas intenções com essas histórias ambientadas no interior do Rio de Janeiro, mais precisamente na cidade de Macuco?
     O primeiro ponto deste manifesto é o livro dispositivo: conceito adotado de Deleuze e Guattari, tratando a obra de arte literária como um objeto divisível em seções esquemáticas. Em outras palavras, temos aqui um dispositivo disforme, agenciando eventos e personagens que volta e meia retornam à atenção do leitor disposto a uma leitura que busque acompanhar o caráter totalizante e fragmentário deste projeto. A observação dessas ligações, no entanto, se compromete, haja vista que as diferentes histórias não se apresentam sob um único teto ou formato. Felizmente, isso lhes concede uma liberdade segmentar que não existiria caso todas as narrativas se apresentassem num só ponto.

Pássaros Artificiais é uma história mutante,
que será publicada de uma maneira aberta às vontades do leitor
     Talvez seja um bom momento para se lembrar que essa HQ é, por si só, uma reinvenção dela mesma. Nesse blog, você pode encontrar uma versão anterior dessa página. As narrativas aqui propostas, um grande romance subdividido em seções não esquemáticas, se valem de um dispositivo disforme, um agenciamento de eventos e personagens que volta e meia retornam à atenção do leitor disposto a acompanhar a totalidade dos acontecimentos ou de um pesquisador com determinação suficiente para se debruçar sobre todas as histórias, já publicadas ou não.
     Deleuze e Guattari nos dizem que o agenciamento das séries só pode ser feito se a grande série se dividir em subséries. Analisando a obra de Kafka, em Por Uma Literatura Menor, eles se detém sobre O Processo:


Esse funcionamento do agenciamento só pode ser explicado se forem levados em consideração, desmontando-o, os elementos que o compõem e a natureza de suas ligações. Os personagens do Processo aparecem em uma grande série que não cessa de proliferar: todo mundo com efeito, é funcionário ou auxiliar de justiça (e no Castelo todo mundo tem a ver com o castelo), não somente juízes, os advogados, os oficiais de justiça, os policiais, mesmo os acusados, mas também as mulheres, as jovens, o pintor Titorelli, o próprio K. Assim, a grande série se divide em subséries. (…) Ora, a primeira característica dessas séries proliferantes é que elas vão desbloquear uma situação que, em outro lugar, as fechava em um beco sem saída. (DELEUZE, GUATTARI, 1977, p. 28)


     No nosso caso específico, as personagens de Tocando anu para Cantagalo, são em sua maioria contadores de histórias. Jornalistas, escritores, cineastas e quadrinhistas dividem a cena com bêbados, maconheiros e loucos que só querem a oportunidade, também, de contarem suas histórias, seus pontos de vista diversos sobre os mesmos elementos.
     O poder de se observar ou ser observado nessas narrativas é reprimido pela ideia de que nem todas foram publicadas ou estão disponíveis num mesmo local de armazenamento, mas isso também lhes concede uma liberdade segmentar que não existiria caso todas as narrativas se apresentassem num só ponto. Afinal, Deleuze e Guattari nos dizem que “cada segmento é uma máquina, ou uma peça de máquina, mas a máquina não é desmontada sem que cada uma de suas peças contíguas não constitua máquina por sua vez, tomando cada vez mais lugar.” (IDEM, p. 84)
  A arquitetura da informação de nossas narrativas é baseada na proliferação das séries, desterritorializando os padrões de linguagem ao mesmo tempo em que territorializa as ações contidas nelas. Vale ainda dizer que esse movimento estético da desordem pré-determinada não é pura paúra do academicismo literário, tampouco autoindulgência criativa, mas sim um esforço de completude e compreensão (ainda que anárquica) da obra.

Já que a história do mundo é feita, de modo algum de um eterno retorno, mas do impulso de segmentos sempre novos e cada vez mais duros, será acelerada essa rapidez de segmentariedade, essa rapidez de produção segmentar, serão precipitadas as séries segmentarizadas, serão acrescentadas. Já que as máquinas coletivas e sociais operam uma desterritorialização maciça do homem, prosseguir-se-á ainda mais longe nesse caminho até uma desterritorialização molecular absoluta. A crítica é inteiramente inútil. É muito mais importante desposar o movimento virtual, que já é real sem ser atual (os conformistas, os burocratas não deixam de interromper o movimento nesse ou naquele ponto). Não se trata de modo algum de uma política do pior, muito menos de uma caricatura literária, menos ainda de ficção científica. (IBIDEM IDEM, p. 87)

     Assim, o que falamos aqui é de uma possibilidade narrativa onde o livro seja algo mais que o volume de papéis ou o amontoado de bytes presentes para um leitor digital. A correlação de histórias trazidas sob o título de Tocandoanu para Cantagalo fazem parte de uma rede, onde os objetos em análise não se encontram presos ou estanques, mas ainda assim, em constante interconexão.


sábado, 18 de junho de 2016

Os fios de Zacarias

    Pássaros Artificiais traz em suas páginas uma série de personagens que aparecem em diversas histórias de Tocando anu para Cantagalo, onde é comum que certos temas acabem por permear as diferentes tramas, assim como o comportamento das personagens.
     Nessa postagem, falamos de Zacarias. Embora sejam essencialmente o mesmo personagem que aparece em A Volta do Umbigo, Disgramento, Macuconha e A Bela Máscara ele difere de uma narrativa da outra quanto ao local de moradia, trabalho e, no caso da web-série Na terra dos pés juntos, até mesmo em relação à personalidade.
    Em Pássaros Artificiais ele aparece acompanhado de outros personagens recorrentes:

Tadito, Zacarias e Pedro Conselheiro

    Quase relatado como alguém obcecado por um painel de fios vermelhos onde o destino das personagens parece estar pré-estabelecido, sendo que em Disgramento o tal painel não aparece e nA Volta do Umbigo ele surja com um dos pés amputados, enquanto em Na terra dos pés juntos, Zacarias não passe de uma sombra sinistra que controla todos os eventos, que, embora nunca tenha sido mencionado nos episódios filmados, aparece em todos os roteiros.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

Pássaros Artificiais está de volta!

História em Quadrinhos experimental ressurge e alça vôo

     Nascida entre 2009 e 2010, publicada semanalmente no suplemento sabático de um jornal da região serrana e neste blog, a HQ Pássaros Artificiais provocou estranheza entre leitores, que acabaram não entendendo muito da trama, cujo final ficaram sem ver até agora. Isto porque os autores, Diego Aguiar Vieira e Antonio Eder, retomaram a produção do quadrinho e agora vão lançar uma versão totalmente nova e enlouquecida da história.
     Originalmente pensada como uma história de trinta e duas páginas, agora a leitura de Pássaros Artificiais estará totalmente entregue às vontades do leitor. Planejada como um caderno donde se soltariam os grampos e a história funciona independente da ordem em que se coloque as folhas, o quadrinho poderia ser lido além do convencional seguir da página primeira até a última. Totalmente redesenhada, a história sairá em um formato especial, com textos inéditos e exclusivos para a primeira edição.

Primeira versão da arte de Antonio Eder para a HQ,
numa página não publicada anteriormente

Nova versão da mesma página

     A história ainda é a mesma: a estranha mistura de elementos que parecem fazer com que uma mulher, desestabilizada pelas falidas figuras masculinas ao seu redor, busque alguma espécie de redenção, que talvez nunca encontre. Isso tudo enquanto se discute a morte, a vida, arte, possessões e compromissos, como uma metralhadora emocional que, se você ainda for daqueles que pensam que quadrinhos é coisa de criança, no mínimo vai pensar que também pode ser uma parada muito louca.
     Para Alex Mandarino, autor do romance O Caminho do Louco – Guerras do Tarot vol. 01, da AVEC Editora, Pássaros Artificiais é “uma sucessão de microcosmos poéticos de tirar o fôlego, uma saga espaço-temporal contida em uma narrativa de núcleo familiar. A obra oferece várias releituras de cada página isolada: tal é o alcance filosófico e lírico do texto. Você termina com a sensação de que não sabe muito bem o que o atingiu, desejando investigar como isso aconteceu”.

Quebranto literário universal

     A história será publicada em breve, de forma independente, sob o selo Macuco Beleza Produtora Independente, formalizando a criação de um universo ficcional que começou a ser moldado anos antes daquela primeira versão de Pássaros Artificiais aparecer por aqui. De lá para cá, o universo narrativo onde se passa a história cresceu e muito.
     Albergadas sob o nome de Tocando anu para Cantagalo, as histórias, todas ambientadas em Macuco, se interligam ao mesmo tempo em que não se encaixam, seguindo mais ou menos à risca os mandamentos de um manifesto de um homem só. Para saber mais sobre as histórias que fazem parte deste universo, comecem a viajar por aqui, siga nossa página no facebook e descubra o restante das nossas histórias em:

Os Arames da Cerca: uma colcha de retalhos de narrativa, onde todas as histórias se cruzam, esticando os fios gerais da trama.
Macuconha: as estranhas aventuras de um bando de malucos, movido a muito... bem, o título entrega o combustível dessa galera. Em breve, num livro perto de vocês.
A Bela Máscara: a história de um escritor apaixonado por uma mulher inalcançável e alheia ao mundo.
Na Terra dos Pés Juntos: uma web-série onde a morte não é o que parece e está aberta a negociações.
Disgramento (ciranda de aço com rosa): um romance totalmente gratuito e gratuitamente escrachado, aconselhável para quem não tem problemas em se perder em si mesmo.
Pássaros Artificiais & outros contos: um ebook de contos, desenvolvendo temas presentes em toda a narrativa.
Contos de Tompinhão Coelho: uma seleção de contos ambientados em Macuco.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

As Portas da Percepção / O Céu e o Inferno


Originalmente publicado em dois volumes, As Portas da Percepção (1954) e O Céu e o Inferno (1956) são dos ensaios mais conhecidos de Aldous Huxley (1984-1963), popular romancista autor de livros como Sem Olhos em Gaza, Contraponto, Admirável Mundo Novo e A Ilha. Em As Portas da Percepção, Huxley fez uso do experimento in loco da mescalina para detectar os efeitos da droga sobre o funcionamento do cérebro. O caráter transcendental do trabalho é assumindo desde o título, uma citação (“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito”) retirado da coletânea de poemas O Casamento entre o Céu e o Inferno, de William Blake.
Chega a ser irônico observar um gentleman inglês como Huxley quebrar tabus e falar com tamanha sobriedade sobre um tema como as drogas. A influência de seu trabalho é notória, tendo se manifestado tanto no campo acadêmico (os experimentos com LSD que fizeram com que Timothy Leary fosse expulso de Harvard), departamentos de segurança do Estado (notórios os estudos conduzidos pela CIA, induzindo cobaias a tomarem doses de variadas drogas afim de observarem seus efeitos), até no campo contracultural (como as excursões de Ken Kesey pela América, com seu ônibus Furthur, realizando testes públicos de ácido, e o livro Cartas do yage, onde os escritores beatnicks William Burroughs e Allen Ginsberg realizam, à sua indiossincrática maneira, um estudo semelhante ao de Huxley, desta vez com o cipó que serve de principal bebida eucarística do Santo Daime).
As conclusões de Huxley, que chega a transcrever trechos de gravações e diálogos em que estivera sob o efeito da droga, são de que “abertas as portas”, a despeito da má fama, o dito alcalóide não oferece redução perceptível das lembranças e raciocínio, embora as impressões visuais sejam grandemente intensificadas, “recuperando um pouco da inocente percepção da infância, quando o senso não se achava direta e automaticamente subordinado à concepção”, mas ainda assim, gerando uma grande vontade de não fazer nada, passando a considerar injustificáveis a maioria das causas que os fariam agir desta ou daquela forma. “Lesado”, diriam. Huxley, porém, defende que há melhores coisas a se pensar quando sob o efeito da droga.
A segunda bateria de ensaios, O Céu e o Inferno, dividida em pequenos apêndices, dá conta também dos efeitos que a iluminação podem ter sobre alguns indivíduos, revelando aspectos nada agradáveis tanto da psique quanto do modo como o mundo se apresente para este ou aquele. Segundo Huxley, a simples noção de individualização presente em algumas dessas viagens ruins, pode ser o bastante para levar um homem à loucura. Ainda assim, firme em seu propósito de vislumbrar a transcendência (que já havia sido tema de um apêndice no seu estupendo romance Os Demônios de Loudun), Huxley passa a análises curtas, porém bem descritivas, sobre outros fenômenos capazes de gerar experiências semelhantes, tais como a luz estroboscópica e o dióxido de carbono.
Como se vê, as experiências para afugentar o ego e vislumbrar algo além dos limites comuns, ao menos para o senhor Aldous Huxley, são um pouco mais variadas que os limítrofes costumes da civilização ocidental tem nos apresentado. Como mencionado no segundo parágrafo, irônico é que tudo isto tenha se passado nos cinqüenta e sessenta e que, novamente, caminhemos na intenção de transformar tais assuntos em tabu. Respirando fundo por aqui...

sábado, 17 de abril de 2010

outra prévia...


- Nem ferrando que dá pra sair vivo e em paz depois da leitura de Antono Callado, minha uva. Quarup é um livro chave, da mesma espécie caudalosa e borbulhante que o Ulisses de James Joyce. Ou estarei cometendo um pecado? Pecadilho, diria. Callado é muito justo na sua readaptação de uma jornada mitológica no decorrer de uns dez poucos anos, iniciados pouco antes da morte de um Getúlio Dorneles Vargas (com tudo lá, até o tirambaço no pé de Carlos Lacerda e outro, fatal, no major da Força Aérea Rubens Florentino Vaz – confira na Wikipédia, o Crime da rua Tonelero), culminantes com o golpe de 64 – que se estende para muito além das páginas, tudo testemunhado por um protagonista tão inconsciente do seu papel mutatório de si mesmo, tão charmoso em suas dúvidas e perfilado em chão de terra, na Pernambuco de Miguel Arraes, que é como se avalia no livro de reportagens, Tempo de Arraes (com duas edições, uma antes de 64, pela Civilização Brasileira, que o meteu na prisão – onde rabiscou as primeiras linhas do que viria a ser o Quarup, e outra de 79, na abertura, uma cópia que tenho, da editora Paz e Terra, que, coincidentemente, tinha seu conselho editorial encabeçado por Callado, Antonio Candido e Fernando Henrique Cardoso), um livr’reportagem que tinha sido precedido por outro, Os Industriais da seca e os galileus de Pernambuco, de 59, construído em cima de série de reportagens feitas especialmente para o Jornal do Brasil. Acontece que em Tempo de Arraes, Callado já enfia uns dois ou três indivíduos que ele romanceia em Quarup. Ou seja, tudo gente fina, realesca, como os demais que o padre Nando, o protagonista herói-picaresco do livro, começa a encontrar no seu caminho, que se traça em sete partes, das quais, e agora volto a me arranhar com o Ulisses de Joyce, tão heróico, tão num único dia, dieróico, não é de se espantar que eu queira me arriscar, nessa enfiança texto adentro, um orgasmo de linhas. Esporreação de palavras convertidas em 4D, mulher! A realidade entre as linhas de um livro são as únicas que nos cabem. E caçando a realidade entre páginas por que não encontrá-la no quarupizante épico do Callado? E lá está, ao menos para mim, iniciada em sorumbático silêncio de quem só conhece a própria voz e é incapaz de se comunicar com Deus, O Ossuário, primeiro capítulo, de desventuras e andanças não tão pesadas, só imploradas, esprimidas e sangradas e molhadas e manchadas nas cuecas e dentes trincados pela noite adentro, muito teórica, muito muito. Isto tudo para se desprender no capítulo seguinte, O Éter, onde enfiamos pelo nariz todo o exagero que ousamos não pedir, e esperamos uns outros personagens estranhos, uns defendendo que crianças sejam infladas como balões, levadas ao céu no paraíso color-entorpecido dos lança-perfumes, enquanto, padreco Nando já tendo descoberto o sexo, agendamos um anúncio, um pré-acontecimento – este é o intervalo negro, mas não se diz inconseqüente, que culmina n’A Maça, terceiro capítulo, qu’é onde eu estava, e que apesar de ser negro (é nele que Getúlio morre, se morre, morre-se o Getúlio Vargas com uma bala na cabeça), é também transformador, porque ressuscita uma série de modos e maneiras de antanho, du’antes de se fazer necessário ter roupa, do antes de ser preciso fingir e chantagear pelo amor e pela dor, de tão antes que até parece efeito do éter – tanto que Sonia se enfia na mata e não volta, e é bem capaz d’ela ter é morrido junto do seu índio papilão. E é só n’A Orquídea que se pode enfiar depois de tão áspero batizado (que, é claro, só se batiza de verdade um homi que sai dos osso e se enfia pela eteriedade e depois se vira alimento-pecado e se cospe de volta pra brotar em flor ness’mundo), que é onde se procura o centro (Callado, tão sutil, cisma de falar também dessa mística), e te enfia floresta adentro, onde a busca não é o que se pensa, mas a quase-morte que ela causa é real e está lá, e para quem sobrevive, só há o caminho (só há um caminho, é claro), A Palavra, o quinto capitulo, onde a realidade se reconstrói em sílabas e tijolos deixam de ser parte da casa pra se fazer casa, se fazer objeto de valor, conquanto que seja mesmo a palavra que constrói o mundo, que é preciso sacrificar prazer e medo em prol da revolução que ainda não é clara, não é só beleza e desejo e satisfação e alegretes do sexto capítulo, A Praia, que ainda não veio, e que é tão belamente ilustrado, com paredes cheias de palavras (LE-VIN-DO) e quartos e redes e barcos e areias e chãos e puteiros todos cheios tão cheios de bucetas e pancadas e torturas e cegueiras que te jogariam, enfim, n’O Mundo de Francisca, onde o caminho escondido dos santos era o caminho perfeito do pecado, e do adeus, adeus, porque o mundo segue para além das páginas.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Prosa do observatório


Essa hora que pode chegar alguma vez fora de toda hora, buraco na rede do tempo,
essa maneira de estar entre, não por cima ou atrás, mas entre,
essa hora orifício em que se acha acesso ao abrigo das outras horas, da incontável vida com suas horas de frente e de lado, seu tempo para cada coisa, suas coisas no preciso tempo

Isto é Julio Cortázar, retirado logo das primeiras linhas do volume que, homônimo ao título deste post, traz ainda uma série de fotografias batidas pelo próprio Cronópio.
O tempo é algo que se encontra em segundo plano nestes meus Pássaros Artificiais: cada um dos personagens está tão livre das amarras do tempo e do espaço, que só lhes resta passear entre as camadas, observar seus tormentos, suas prisões, suas gaiolas - é como se estivessem perdidos num quadro de Escher, várias cópias deles mesmos se cruzando nas escadas, correndo em todas as direções, aflitos, querendo chegar a algum lugar.
Com sorte, o leitor pode se identificar e, com mais sorte ainda, se lançar na mesma escadaria. Mas, por favor, não me acusem de buscar alguma coisa. Muito menos uma resposta.

terça-feira, 30 de março de 2010

Cut-up


fumando um Carlton Dunhill, enxotando Cinza de Medo que insistia em se enroscar, pareceu-lhe muito agradável como homem, muito gordo, uma figura esquisita, um catador de palavras, que faço neste lugar abandonado dos diabos?, distante da esguia figura burroughsiana que, na bolsa, sobre o topo das anotações, uma máquina de escrever meio quebrada, os dois, mandando numa única noite um metro de cocaína, sem problema, ainda sendo capaz de viver, coisa toda que está se desencadeando por aqui, porque prefiro Drácula à Frankestein, mas comer aquela lindeliciosa ao meu redor – incrível que eu, como na sua visão, falharia completamente em ser da fundação da Orquídea, capim, filho da terra, expelindo catarros, o Garoto Cut-Up, como era apelidado, esfregava os olhos, os filetes de frases se montando, se recriando, espremendo-se mente afora, enquanto ele decodificava em capítulos de Sabrina, Huxley, Cortazar e páginas do Caderno de Esportes, arrancando significativos laivos do futuro que a ponta da caneta é a ponta dum V, uma seta – puxar o gatilho, e deixar-se rebentar que é isso aí, e se enfia, contou também, indo de pó branco inté o fundo do nariz do velho, passar deixando o velhinho ligadão, lembrando da época como administrador, superar antinomias, mas é condenado porque ousou.
Depois, segundo pensa a senhorita Callamand, segue-se uma fase de desmineralização, as enguias se tornam amorfas (mas a linha se quebra no amor), se abandonam às correntes, o verão, compilador de letrinhas, isso é que era o guri, e desperta, e por causa disso o homem está aí cobiçoso, Nietzsche e Joyce, um ou outro olho apodrecido pela dúvida, enguias, dura fé, “e que porra de festa é essa?” “ah, festa de volta, fazer ela viva de novo, bichinha, a chance de fazer lá, amando aliens”, sendo difícil de compreender satisfatoriamente esse papo de encerrar o mundo.
eu também te amo
De olho no cut-up boy, um circuito diferente, rearranjando neurônios, a complexidade das Valquírias, quando longe de serem mercenárias, refazem a oportunidade de escrever sem freios, sem amigos, todos todos, tão felizes, oh oh, tão cá com o demônio e seus brinquedos, ainda escrevendo o que é seu, meu, à serviço do Grupo agora, tesoura presa entre os dedos, cortando páginas inteiras durante todo o dia: - Você não vai – é o que esperam, é o que me pedem.
Zacarias, no ônibus, enquanto viaja, olhos rancorosos, abraços oportunistas, refletindo os assuntos a serem tratados, uma mulher sem punhos, um distribuidor de rações agrícolas. Olhando sem muitos pudores para seus punhos, Zacarias pensou na velha teoria de um amigo que tentado a lhe dar uma mostra de como seria um aleijado, respirou algumas vezes, falou com o filho mais coração e se procurou bem, encontrando-o no útero.
Eles também não te selecionam no fim da viagem, destino único: Götterdämmerung, meu som depois de tocar, indo indo, de um lado a outro, após os insuportáveis insultos de seu mundidentificação, sobre a voz que solicitava entender, o som de uma sanfona, enfim: manhã de natal, as casas que sobraram, é difícil compreender satisfatoriamente, esse papo encheu o quarto para encerrar com o mundo a partir de algumas das suas atividades: masturbação, viciado, transformou o apartamento sem querer saber de maçã porra nenhuma, que essas merdas ninguém na cidade destacava-se pelo prazer ao ócio e pela ira sobre rostinhos ricos e bonitos a fim de se esgotar, que agora já não se quer mais um fumódromo, nem índios querendo ressuscitar troncos, nem maconheiros e esquisitos, mas sim gente que se embeleze para a posteridade.
No fim do mundo do fim do mundo um origami ganha vida e se esconde de alguma tênue forma, conhecendo e se aproximando, olho na rachadura perfeita dos dedos, olho silencioso, catalepeteando uma planta carnívora, brotando totalmente de quem está de fora, de volta, engolindo moscas, para que a trama não entre, não se enfie, absorva somente a mim, encarquilhando-me fantasticamente, completamente pensada, que eu vou me encarregar de justificar alguma ordem na loucura de disco arranhado lhe buscando e pombos.
A confusão era só para pestanejar.
A senhorita Callamand colhe os resultados, entrega à jovem Carolina que, livre dos seus remédios, lê o relatório de cut-up boy, o Garoto Cut-Up, como quem lê uma mão de cartas de tarô, mas antes sai sob o tempo ruim, enche os olhos de poeira, grita para as nuvens escuras e esfregando o nariz espirra um muco verde na barra da saia rosa, que ela esfrega na parede e

“E se ele não quiser ser aliviado destes sofreres?”
acorda na manhã seguinte, quando ela já havia se dado conta de que ambos são ficções sobre não se ter uma casa, não cortar as unhas e viver com cheiro de cachaça

depois, encharcada, volta ao escritório, onde se reporta à senhorita Callamand, anunciando que as coisas começam a desandar e que, talvez, seja a melhor hora para se visitar Macuco ou Pouso Alegre ou Santa Amena ou seja lá que diabos de nome tenha a porcaria da cidade onde Anhangaátoo Therion recruta homens para se transformarem em passarinhos e palavrinhas obscenas e criar o fim do mundo, enfiando-se através das páginas, palavras pelas paredes, fugindo, inventando a formação de um romance de benefícios: a frágil mulher, a feiinha, os empregadores, o que se pode fazer num quarto, tornando-se uma insinuante ciclotimização idiota de tramas que remetam a tudo, desde que não se abra o bico, que as histórias e personagens, como um agulhão, furem, mas não possuam nem costurem, deixando todas as tramas soltas, dispostas à imaginação, escrevendo como quem pinta uma parede de azulejos, pequenos quadrículos de cerâmica, preto e branco, a cada novo azulejo, um santo na parede, manipulando, disfarçando a realidade por toda a sala. Como um grande filtro. Amém.


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breve interlúdio (e prévia), escrita aos moldes da técnica narrativa criada pelo velho William Lee. Um presente para os leitores que ainda se arriscam nesse blog.
Recomenda-se o uso de LSD durante a leitura.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Prévia



O que eu mais gosto de trabalhar com o Antonio, é que ele sempre sabe encaixar muito bem o que eu peço de forma tão amalucada no roteiro, com o que a trama (essa coisinha de muitas pernas, que me foge ao controle) pede por ela mesma.
Isto, é um suspiro após um longo hiato. Em breve, retornaremos com a programação normal.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Andrew Wyeth


O post do dia 04, fazia uma homenagem ao quadro O Mundo de Christina. A pintura, Christina's World, do americano Andrew Wyeth (1917-2009), retratava a prima do artista, Christina Olson, vítima de poliomielite, que tinha de se arrastar por todo o terreno em que vivia para colher os frutos de seu jardim. Tema de uma série de pinturas de Wyeth, Christina vivia em Cushing, Maine. Sua casa, que continua de pé, hoje é conhecida como a Casa de Olson.
Curiosamente, Wyeth não usou Christina como modelo para seu quadro, mas sim sua esposa, Betsy.